quarta-feira, abril 17, 2019



PÁSCOA
Um madeiro
um simples madeiro
e foi tortura
sofrimento e morte
para que se cumprisse
a Escritura
do Filho de Deus
nascido pra tal sorte!
E foi Rei
sem trono neste mundo
que cego, surdo e mudo
à sua Lei
ainda hoje procura
dentro e fora de si
quem lhe deu tudo…
um madeiro
um simples madeiro
Cruz erguida
que sendo tortura e morte
foi a Vida!

Maria Mamede (Páscoa 2019

sábado, abril 06, 2019


UM HINO A MACEIÓ


Azul e verde 
num mar de beleza
sem fim
e um céu d'encanto
onde o Criador
se debruça
a olhar, embevecido
a sua criação;
e Maceió acorda
sorrindo
no multicolorido
das flores
e no orquestrado canto
da passarada.
E quando o sol aparece
vem saudar a Cidade
buliçosa
que "dengosamente" passa
a caminho do mar...
e são Dele todas as cores
de pele
todos os pregões
e todos os frutos
que nas bancas 
das vendedoras
desafiam
os olhos curiosos
dos passantes!
Mas quando o dia
se despede
nos últimos raios de sol
dum estio quente
e luminoso
e a passarada voa
de regresso aos ninhos
o Bem-Te-Vi entoa o último
canto do dia
e o Beija-flor
se despede das flores que ama
é ainda o Criador
que acendendo as estrelas
sorri, maravilhado
com a sua Criação!

Maria Mamede
(22/Dezembro/2018)



terça-feira, abril 02, 2019


  

Como Alfonsina descalça
pés arrastando marés
meus pés arrasto
no tempo
num barco feito de vento
sem arrais
e sem convés…
e sou casco de navio
e sou vela principal
exposta ao calor
ao frio
e fujo à praia
e ao vazio
que no meu peito
desmaia!

Maria Mamede

(do livro "CANÇÕES DO MAR")

segunda-feira, janeiro 28, 2019




     
AVÔ EVARISTO

Teus olhos azuis-cinza
e teu cabelo loiro
e ondulado
reminiscências avoengas
de franceses e ingleses
eram chamariz
prás moças da aldeia
tão tisnadas, tão morenas…
cantavas ao desafio
em festas de família
ou encontros de amigos
e sabias de cada meco- divisória
perdido no meio
dos campos
e dos dias da água
de regar
dos consortes
da presa da Lavandeira.
Tinhas de teu
 uma junta de bois
e algumas vacas
que no inverno pariam
e davam leite, tanto
que com ele a Avó
todas as manhãs fazia
manteiga
enchendo o nosso “frigorífico”
(a fonte da cozinha)
com malgas de faiança
cobertas com panos de linho…
descendente de ricos
foste sempre pobre
e toda a gente, filhos e filhas
criados da casa  e de jorna
e visitas
gente rica ou gente pobre
se sentava à mesma mesa
de bancos corridos
porque tinhas o coração aberto
a todos
e a porta no trinque
pra quem vinha de longe
precisado de uma tigela de caldo
 um naco de broa
 um copo de vinho
e uma noite dormida
no barracão grande
em meio à palha…
nas romarias
gostavas de ouvir as bandas
principalmente
quando tocavam Verdi
e choravas com facilidade…
apesar de Avô
sempre te chamei Pai
e foste-o, de verdade;
e foi na tua casa que nasci!

Maria Mamede

(do livro "ALBUM DE FAMÍLIA")






domingo, dezembro 09, 2018





HORAS

 Senhora das Tempestades
Vem no ocaso dos dias
Em todas as agonias
A toda a gente que chora;
Eu te imploro, a cada hora
Por crenças, filosofias
Senhora das ventanias
E o desapego de agora;
Senhora feita de luz
Luzeiro mor nesta vida
Tu que levas de vencida
Toda a dor, toda a tristeza
És Senhora da riqueza
Na alma de cada ser
E porque Te é dado ver
Pra dentro de cada um
Sofres como mais nenhum
Outro ser, entre os mortais;
Se pensamos ser iguais
A Ti, ó Graça tamanha
Apenas Tu és montanha
Sopé, as nossas vontades
Só Tu és luz que nos banha
Senhora das Tempestades!
Senhora de horas dolentes
Na solidão dum claustro
Sem vil metal, sem o fausto
Do que se compra no mundo
Traz teu abraço profundo
Senhora da liberdade.
 Dá-nos a serenidade
Senhora, nas agonias
E faz que vença a verdade
Senhora das ventanias
Na senda de vãs vontades;
Ó dona das tempestades
Vem no ocaso dos dias!...

Maria Mamede















domingo, dezembro 02, 2018




SE HOJE O AMOR       

Se hoje o Amor viesse, sorrateiro
No meu peito, procurar um ninho
Deixá-lo-ia entrar, devagarinho
Como se ele fosse o derradeiro…

Se hoje o Amor viesse, eu sorriria
Como um dia, há muito, já o fiz
E meu velho coração, de tão feliz
Loucamente bateria, bateria…

Não, não seria bom; melhor não vir
A sua vinda iria permitir
Recomeçar, no fim da caminhada;

Será talvez melhor a solidão
Que outra vez o amor-desilusão;
A esta, já eu estou habituada! …



Maria Mamede


sábado, novembro 24, 2018





Não sei se algum dia
sentiste por mim um amor
igual ao meu;
sei apenas
que quando os pássaros
invadiram a casa
foi como se todos
os teus beijos
invadissem a minha boca
e o teu olhar
fosse abraço clandestino
na noite sem lua.
Ah meu Amor e o abraço
o teu abraço
era precioso contrabando
galgando fronteiras!

Maria Mamede

( "Tantos Livros por Escrever...")

domingo, novembro 18, 2018






Abre essas “ janelas”
luminosas!
Por causa delas
o sol morre d’ inveja;
e olha à tua volta
nem que seja
porque as “meninas”
nasceram curiosas…
abre essas “portadas”
par em par
porque o azul
nelas a brilhar
faz inveja ao céu
quem o diria;
abre-as
que são tão formosas
como no roseiral
as frescas rosas
cada manhã
ao despontar do dia.

Maria Mamede

(do livro "Canções do Mar")





sábado, novembro 10, 2018



CANÇÃO DO PÃO


Vede o Pão!
não somente o nosso 
de cada dia
de que se fala
comummente
mas o outro
aquele
de que ninguém 
quer falar
por saber a fel.
Aquele outro
que ninguém diz
o que paga ao usurário
o que come o mau juiz
o do misérrimo salário
o de quem morre de fome
que quase toda a gente
diz que desconhece
porque não interessa
nem apetece
aos senhores do mundo...
olhai o pão
do desamor profundo
aquele pão
que tortura e envilece
e não alimenta
mas fornece
dinheiro, a rodos
olhai ainda
o pão
que nos é roubado
e que deveria ser
de todos...
depois
vede o pão
de toda a gente
e ficarei contente
se vos saciar
nem precisamos
que seja
de alva farinha
qualquer espiga
escura e minguada
vos dará a festa
quando a hora do banquete
soar!...

Maria Mamede



quarta-feira, novembro 07, 2018





 MÃE

Antes Mãe
muito antes do desabrochar da semente
todos os dias eram nossos
e ninguém nos podia separar…
depois, o tempo correu
e os dias passaram a ser
só teus e só meus, assim, separadamente
porque a vida ia fugindo
e abrindo outras veredas.
Mais tarde, o fruto dando outros frutos
abriu mais caminhos e mais veredas
que de vez em quando iam dar
à casinha pequena que tinha sido só nossa.
A certa altura, sem explicações
os dias voltaram a ser nossos
só nossos, como no começo;
hoje, são somente os meus dias
na solidão acompanhada por um Anjo
que és tu
e que se divide entre mim
e todos os outros
 que continuas a amar e a proteger…
mas sabes Mãe, à noite, continuo a deixar a luz acesa
à espera que venhas
prá viagem derradeira.

Maria Mamede












sábado, outubro 27, 2018



ÀS CINCO DA MANHÃ

Às cinco da manhã faço-te versos
no cais do meu olhar, ressalta espuma
às cinco da manhã, envolto em bruma
vens acender meus sonhos mais dispersos...

às cinco da manhã, trazes-me o mundo
perdido no etéreo em que acredito
e às cinco da manhã me precipito
no amor, no teu amor, onde me afundo...

às cinco da manhã, noite meada
quando a aurora rompe a madrugada
que principia, preguiçosa a ir embora

às cinco, a manhã parece alada!
Em ti, somente em ti, durmo enroscada
no sépia do meu sonho, como agora!

Maria Mamede







segunda-feira, outubro 15, 2018





..e são barcos os braços
quando pousam em terra firme
seus pés
afeitos às vagas
e remos
suas mãos, calosas e ternas
em noites de paixão;
o mar os trouxe, uma vez mais
e suas vidas são feitas
de idas e vindas
vida e morte lado a lado
sombra a sombra…
são barcos os braços
mas os olhos e a boca
são onda incessante
na praia-corpo
das mulheres do mar…



Maria Mamede

do livro "(A) MAR

quarta-feira, outubro 10, 2018





Amam com a força telúrica
do amanho do quintal
como quem leva o carreto de algas
para adubar a terra
fazendo crescer  hortaliças
e morangos
atrás da casa…
amam com a força
com que pegam na canastra
e vão pelas ruas
apregoando
o que o mar lhes depôs
no regaço
sobra duma noite  de luta…
amam
com o mesmo ranger de dentes
e os mesmo urros
com que se agacham
pra parir!


 Maria Mamede

(do livro (A)MAR)

sexta-feira, outubro 05, 2018



NÃO PROCURO A RIMA…

Não procuro rima…
escolho apenas
um poema
que diga do desespero
do logro
do desengano
da impotência
e vou juntando palavras
que falam por mim
pela minha voz 
agonizando na garganta.
não procuro rima…
o poema em verso
suavizaria esta revolta
que nasceu e cresce
dentro do meu peito
ao ver o meu País
verde e poeta
de joelhos
corda ao pescoço
como Egas Moniz
a hipotecar 
seu direito de sonhar
para saldar dívidas
que não fez!
Não, não procuro o verso!
A prosa é mais dura
e no caso, rima
com REVOLTA!...


Maria Mamede


sábado, setembro 29, 2018




Os dois poemas abaixo publicados,  foram escritos, como se verá pela data,  por via da Homenagem que a querida Amiga Dra. Conceição Lima fez ao POETA EGITO GONÇALVES, no seu programa de Poesia na Poesia na Rádio Vizela, quarta feira última.

Como afilhada dele e de um também querido Amigo, de longa data, NELSON FERRAZ, quis publicá-los neste meu BLOG. como parte da minhaa estória em comum com estes dois Grandes Poetas.


29/Setembro/2018

Maria Mamede



PRENDA  
(A Egito Gonçalves e Nelson Ferraz)

De vós a prenda
dum sonho cumprido
sonhado
muito antes e vivido
já lá vão tantos anos…
uma vida!
E nesta larga estrada
percorrida
o Aquém, o Além
a despedida
um até sempre
um até nunca mais
e a brisa
da Amizade repartida
a bailar nos canaviais!

Maria Mamede
(23/09/2018)






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AGRADECIMENTO TARDIO
              (A Egito Gonçalves)

Creio que nunca te agradeci
devidamente
o que fizeste por mim…
nem a luz do teu olhar
terno e fundo
nem o quase sorriso
doce e dorido.
Hoje
porque para agradecer
é sempre hora
envio-te o meu abraço
de amizade
e o meu beijo sem tempo!

Maria Mamede
(22/Set/2018)



domingo, setembro 23, 2018





Tuas mãos dois pássaros…
esticam ao sol as penas
ao romper da manhã;
duas garças brancas
pousando suavemente
no meu colo
no meu corpo
campo aberto a carícias…
e levantam
e planam
e pousam
e percorrem
e acariciam
e levantam
e planam
e pousam
e…

domingo, setembro 16, 2018


Na quietude mansa 
desta casa silente
há apesar do frio
que aparece
algo
que toda me aquece
nos horizontes restritos
da memória...
é algo comum;
qualquer estória 
possui
e sendo diferente
é sempre igual
e toda a gente
o aceita, o oferece
com olhar brilhante
e ar disperso
como quem dá
perfumes
flores
um verso
ou qualquer coisa 
sonhada ou vivida;
qualquer coisa
que nos deu mais Vida
a certa altura da Viagem.
esse algo superior
fluido, etéreo
tem um nome simples
é AMOR
que não passando, às vezes
de miragem
tem a magia
que há no lar
quando só aquece
sem queimar!...

Maria Mamede
(do Livro "A CASA SILENTE")


domingo, setembro 09, 2018



SEMPRE À VOSSA CHEGADA...
                              
                                               (aos meus Filhos, ambos emigrantes)




Sempre à vossa chegada
entra a vida pela janela
e minh' alma é renovada
pelo Amor que vem com ela;
sempre à vossa chgada
entra a vida pela janela...

sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela!
Há risos na madrugada
e arroz doce na panela;
sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela...

sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!
Abre-se a porta fechada
do meu peito, escancarada
pois sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!

Maria Mamede

(do livro "BANALIDADES")




quarta-feira, setembro 05, 2018

TESTAMENTO
Quando eu partir, filhos meus
que tenho pra vos deixar
a não ser o verbo amar
em desditoso exagero,
o único qu'eu ' inda quero
e sempre quis conjugar?!
Posso dizer-vos que creio
ter nascido com o destino
que a cada, de pequenino
diz do bem e diz do mal
que se terá vida fora
e afirmo, nesta hora
sem peias e sem rodeio
que amar será o meio
de o Bem supremo alcançar.
Quando eu partir filhos meus
não tereis terras, dinheiro
nem matas, nem areais
nem nada de que possais
engrandecer-vos, bem sei
mas deixarei a abundância
duma vida com fragrância
que a Natureza me deu;
vida com bem e com mal
tão simples, tão natural
tão singela com eu;
mas com ela eu procurei
deixar-vos tudo o que sei
fazer-vos ir mais além
incitar vossa vontade
de amar sempre a Verdade
e a Liberdade também!
Quando eu partir, filhos meus
não sereis donos de nada
a não ser da consciência
e nem tereis concorrência
ao querer alma lavada,
pois neste mundo, acredito
vive-se preso no fito
do lucro, do muito ter
por isso, quando eu morrer
tereis apenas em sorte
a certeza de que a morte
é uma porta, a passagem
para a eterna viagem
que à Vida nos conduz;
mas creio poder deixar
bem dentro do vosso peito
o Amor, o mais perfeito
prá vossa vida adoçar!
(do livro "BANALIDADES)     



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sábado, agosto 25, 2018



ALENTEJANDO

Cigarras cantam a canção dolente
de lendas mouras e de amores sem fim
como se chorando, ao calor mordente
a paixão que finda em ti e em mim.

O cacto aloé à beira da ‘strada
vai ficando longe, coberto de pó
tudo é caminho, ‘té de madrugada
e a vida ficando cada vez mais só!

Cai a noite morna e o passo arrasta
o cansaço quente, a tristeza fria
desperta o milhano, traz o sol em brasa
canta’ o Alentejo ao nascer do dia!


Maria Mamede


domingo, agosto 19, 2018


( de vez em quando uma prosa)




COLOQUIAIS – 2

Quando Setembro chegar vou fazer as “malas” e partir!
É bem verdade que todas as partidas me fazem chorar dilúvios, sempre o fizeram, principalmente aquelas em que sou eu quem fica; e se partir é esperança, chegar é a imensa alegria da redescoberta da casa, vazia de mim, que sorri e suspira aliviada porque voltei… e é ainda, o relembrar dos cheiros, daqueles cheiros que mesmo inconscientemente, guardamos num cantinho da nossa memória, cheiros dela, da casa e da natureza circundante, a juntar aos sons e silêncios que ela proporciona para eu ser feliz!
E mais que partir, chegar É BOM, tão bom, que creio será assim tamanha a Alegria das aves, no regresso aos ninhos antigos!

Maria Mamede


domingo, agosto 12, 2018




Qual murmúrio de oração
fumo de vela
saídos duma boca
ou dum altar
são os raios de sol
pela janela
os primeiros do dia
a entrar por ela
ou os últimos, da tarde
a terminar…
e o fumo dessa luz
bruxuleante
é na noite
bela acompanhante
de quem murmurando
se despede
até outra manhã
ou outra vida
e é no novo dia a despontar
prenuncio
de nova luz em novo altar
eterno ressurgir e despedida!

Maria Mamede