sábado, novembro 10, 2018



CANÇÃO DO PÃO


Vede o Pão!
não somente o nosso 
de cada dia
de que se fala
comummente
mas o outro
aquele
de que ninguém 
quer falar
por saber a fel.
Aquele outro
que ninguém diz
o que paga ao usurário
o que come o mau juiz
o do misérrimo salário
o de quem morre de fome
que quase toda a gente
diz que desconhece
porque não interessa
nem apetece
aos senhores do mundo...
olhai o pão
do desamor profundo
aquele pão
que tortura e envilece
e não alimenta
mas fornece
dinheiro, a rodos
olhai ainda
o pão
que nos é roubado
e que deveria ser
de todos...
depois
vede o pão
de toda a gente
e ficarei contente
se vos saciar
nem precisamos
que seja
de alva farinha
qualquer espiga
escura e minguada
vos dará a festa
quando a hora do banquete
soar!...

Maria Mamede



quarta-feira, novembro 07, 2018





 MÃE

Antes Mãe
muito antes do desabrochar da semente
todos os dias eram nossos
e ninguém nos podia separar…
depois, o tempo correu
e os dias passaram a ser
só teus e só meus, assim, separadamente
porque a vida ia fugindo
e abrindo outras veredas.
Mais tarde, o fruto dando outros frutos
abriu mais caminhos e mais veredas
que de vez em quando iam dar
à casinha pequena que tinha sido só nossa.
A certa altura, sem explicações
os dias voltaram a ser nossos
só nossos, como no começo;
hoje, são somente os meus dias
na solidão acompanhada por um Anjo
que és tu
e que se divide entre mim
e todos os outros
 que continuas a amar e a proteger…
mas sabes Mãe, à noite, continuo a deixar a luz acesa
à espera que venhas
prá viagem derradeira.

Maria Mamede












sábado, outubro 27, 2018



ÀS CINCO DA MANHÃ

Às cinco da manhã faço-te versos
no cais do meu olhar, ressalta espuma
às cinco da manhã, envolto em bruma
vens acender meus sonhos mais dispersos...

às cinco da manhã, trazes-me o mundo
perdido no etéreo em que acredito
e às cinco da manhã me precipito
no amor, no teu amor, onde me afundo...

às cinco da manhã, noite meada
quando a aurora rompe a madrugada
que principia, preguiçosa a ir embora

às cinco, a manhã parece alada!
Em ti, somente em ti, durmo enroscada
no sépia do meu sonho, como agora!

Maria Mamede







segunda-feira, outubro 15, 2018





..e são barcos os braços
quando pousam em terra firme
seus pés
afeitos às vagas
e remos
suas mãos, calosas e ternas
em noites de paixão;
o mar os trouxe, uma vez mais
e suas vidas são feitas
de idas e vindas
vida e morte lado a lado
sombra a sombra…
são barcos os braços
mas os olhos e a boca
são onda incessante
na praia-corpo
das mulheres do mar…



Maria Mamede

do livro "(A) MAR

quarta-feira, outubro 10, 2018





Amam com a força telúrica
do amanho do quintal
como quem leva o carreto de algas
para adubar a terra
fazendo crescer  hortaliças
e morangos
atrás da casa…
amam com a força
com que pegam na canastra
e vão pelas ruas
apregoando
o que o mar lhes depôs
no regaço
sobra duma noite  de luta…
amam
com o mesmo ranger de dentes
e os mesmo urros
com que se agacham
pra parir!


 Maria Mamede

(do livro (A)MAR)

sexta-feira, outubro 05, 2018



NÃO PROCURO A RIMA…

Não procuro rima…
escolho apenas
um poema
que diga do desespero
do logro
do desengano
da impotência
e vou juntando palavras
que falam por mim
pela minha voz 
agonizando na garganta.
não procuro rima…
o poema em verso
suavizaria esta revolta
que nasceu e cresce
dentro do meu peito
ao ver o meu País
verde e poeta
de joelhos
corda ao pescoço
como Egas Moniz
a hipotecar 
seu direito de sonhar
para saldar dívidas
que não fez!
Não, não procuro o verso!
A prosa é mais dura
e no caso, rima
com REVOLTA!...


Maria Mamede


sábado, setembro 29, 2018




Os dois poemas abaixo publicados,  foram escritos, como se verá pela data,  por via da Homenagem que a querida Amiga Dra. Conceição Lima fez ao POETA EGITO GONÇALVES, no seu programa de Poesia na Poesia na Rádio Vizela, quarta feira última.

Como afilhada dele e de um também querido Amigo, de longa data, NELSON FERRAZ, quis publicá-los neste meu BLOG. como parte da minhaa estória em comum com estes dois Grandes Poetas.


29/Setembro/2018

Maria Mamede



PRENDA  
(A Egito Gonçalves e Nelson Ferraz)

De vós a prenda
dum sonho cumprido
sonhado
muito antes e vivido
já lá vão tantos anos…
uma vida!
E nesta larga estrada
percorrida
o Aquém, o Além
a despedida
um até sempre
um até nunca mais
e a brisa
da Amizade repartida
a bailar nos canaviais!

Maria Mamede
(23/09/2018)






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AGRADECIMENTO TARDIO
              (A Egito Gonçalves)

Creio que nunca te agradeci
devidamente
o que fizeste por mim…
nem a luz do teu olhar
terno e fundo
nem o quase sorriso
doce e dorido.
Hoje
porque para agradecer
é sempre hora
envio-te o meu abraço
de amizade
e o meu beijo sem tempo!

Maria Mamede
(22/Set/2018)



domingo, setembro 23, 2018





Tuas mãos dois pássaros…
esticam ao sol as penas
ao romper da manhã;
duas garças brancas
pousando suavemente
no meu colo
no meu corpo
campo aberto a carícias…
e levantam
e planam
e pousam
e percorrem
e acariciam
e levantam
e planam
e pousam
e…

domingo, setembro 16, 2018


Na quietude mansa 
desta casa silente
há apesar do frio
que aparece
algo
que toda me aquece
nos horizontes restritos
da memória...
é algo comum;
qualquer estória 
possui
e sendo diferente
é sempre igual
e toda a gente
o aceita, o oferece
com olhar brilhante
e ar disperso
como quem dá
perfumes
flores
um verso
ou qualquer coisa 
sonhada ou vivida;
qualquer coisa
que nos deu mais Vida
a certa altura da Viagem.
esse algo superior
fluido, etéreo
tem um nome simples
é AMOR
que não passando, às vezes
de miragem
tem a magia
que há no lar
quando só aquece
sem queimar!...

Maria Mamede
(do Livro "A CASA SILENTE")


domingo, setembro 09, 2018



SEMPRE À VOSSA CHEGADA...
                              
                                               (aos meus Filhos, ambos emigrantes)




Sempre à vossa chegada
entra a vida pela janela
e minh' alma é renovada
pelo Amor que vem com ela;
sempre à vossa chgada
entra a vida pela janela...

sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela!
Há risos na madrugada
e arroz doce na panela;
sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela...

sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!
Abre-se a porta fechada
do meu peito, escancarada
pois sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!

Maria Mamede

(do livro "BANALIDADES")




quarta-feira, setembro 05, 2018

TESTAMENTO
Quando eu partir, filhos meus
que tenho pra vos deixar
a não ser o verbo amar
em desditoso exagero,
o único qu'eu ' inda quero
e sempre quis conjugar?!
Posso dizer-vos que creio
ter nascido com o destino
que a cada, de pequenino
diz do bem e diz do mal
que se terá vida fora
e afirmo, nesta hora
sem peias e sem rodeio
que amar será o meio
de o Bem supremo alcançar.
Quando eu partir filhos meus
não tereis terras, dinheiro
nem matas, nem areais
nem nada de que possais
engrandecer-vos, bem sei
mas deixarei a abundância
duma vida com fragrância
que a Natureza me deu;
vida com bem e com mal
tão simples, tão natural
tão singela com eu;
mas com ela eu procurei
deixar-vos tudo o que sei
fazer-vos ir mais além
incitar vossa vontade
de amar sempre a Verdade
e a Liberdade também!
Quando eu partir, filhos meus
não sereis donos de nada
a não ser da consciência
e nem tereis concorrência
ao querer alma lavada,
pois neste mundo, acredito
vive-se preso no fito
do lucro, do muito ter
por isso, quando eu morrer
tereis apenas em sorte
a certeza de que a morte
é uma porta, a passagem
para a eterna viagem
que à Vida nos conduz;
mas creio poder deixar
bem dentro do vosso peito
o Amor, o mais perfeito
prá vossa vida adoçar!
(do livro "BANALIDADES)     



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sábado, agosto 25, 2018



ALENTEJANDO

Cigarras cantam a canção dolente
de lendas mouras e de amores sem fim
como se chorando, ao calor mordente
a paixão que finda em ti e em mim.

O cacto aloé à beira da ‘strada
vai ficando longe, coberto de pó
tudo é caminho, ‘té de madrugada
e a vida ficando cada vez mais só!

Cai a noite morna e o passo arrasta
o cansaço quente, a tristeza fria
desperta o milhano, traz o sol em brasa
canta’ o Alentejo ao nascer do dia!


Maria Mamede


domingo, agosto 19, 2018


( de vez em quando uma prosa)




COLOQUIAIS – 2

Quando Setembro chegar vou fazer as “malas” e partir!
É bem verdade que todas as partidas me fazem chorar dilúvios, sempre o fizeram, principalmente aquelas em que sou eu quem fica; e se partir é esperança, chegar é a imensa alegria da redescoberta da casa, vazia de mim, que sorri e suspira aliviada porque voltei… e é ainda, o relembrar dos cheiros, daqueles cheiros que mesmo inconscientemente, guardamos num cantinho da nossa memória, cheiros dela, da casa e da natureza circundante, a juntar aos sons e silêncios que ela proporciona para eu ser feliz!
E mais que partir, chegar É BOM, tão bom, que creio será assim tamanha a Alegria das aves, no regresso aos ninhos antigos!

Maria Mamede


domingo, agosto 12, 2018




Qual murmúrio de oração
fumo de vela
saídos duma boca
ou dum altar
são os raios de sol
pela janela
os primeiros do dia
a entrar por ela
ou os últimos, da tarde
a terminar…
e o fumo dessa luz
bruxuleante
é na noite
bela acompanhante
de quem murmurando
se despede
até outra manhã
ou outra vida
e é no novo dia a despontar
prenuncio
de nova luz em novo altar
eterno ressurgir e despedida!

Maria Mamede


quinta-feira, agosto 09, 2018





Ah como são belos os rios!

Gostava de ser

Pelo menos um ribeirito...

Poderia, espreguiçar-me entre fragas

Deslizar no macio dos musgos

Sentir o aroma das flores

Nas margens

E enfeitar de pampilos

Os Junhos do tempo.

E mesmo que não chegasses nunca

Não teria vida solitária

Com tanto a meu lado...

Apenas uma coisa me preocupa

Tenho medo da água!...



Maria Mamede

(do livro "NO CAIS DO TEMPO")

quarta-feira, agosto 01, 2018





Nas tardes de oiro
do meu sonho
há rendilhadas colunas
de alabastro
pintadas
com poeira de astro
perdido
no encanto das marés…
astro
em poeira transformado
que um dia caiu
do céu estrelado
pra ser areia
a beijar meus pés!



Maria Mamede


(do livro "A INCOERÊNCIA DO SONHO")

sábado, julho 21, 2018





A mansidão das rolas
pela manhã
invade esta casa
que é meu peito
ond’ este corpo meu
outrora leito
inda vive, inda arde
de paixão…
e as aves todas
sabendo da tristura
de ser esta ave
aprisionada
chegam até mim
pela madrugada
e bebem em meus olhos
a amargura!

Maria Mamede



(do Livro  "A Invasão dos Pássaros")

domingo, julho 15, 2018




SOLILÓQUIO

                    (do livro "ALBUM DE FAMÍLIA"

Perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não chegaste!
E começa a estar frio demais
para este vestido fino
tingido de papoilas;
sabes, já choveu bastante
embora eu não tivesse
abandonado
este banco de pedra
onde te espero
há tantas vidas!
Entanto, o tempo corre.
Desbotou-se o meu batom
de tanto beijar a ausência
e o meu coração
potro selvagem
vai agora a passo
pelos atalhos da espera!
Atormenta-me a demora...
antes, os rios
eram lágrimas
de saudade;
hoje, porém
tudo é deserto
na morte do verde.
Os sonhos, amarelo-desespero
começam a insinuar-se
no horizonte infindo
das memórias.
Rasguei minha alma
contra o casco do navio
onde viaja a esperança
e são já mortas
as horas
que deixei esquecidas
no cais do tempo...
já não sei se falo contigo
ou com aquela pêga (*)
que me olha do galho mais alto
solitária
como eu.
Ah meu amor
perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não vieste!
E eu, aqui sozinha
há tanto tempo
creio já ter esquecido
o caminho de casa!...


Maria Mamede

(* - pássaro preto e peito branco de meio porte e grande beleza)







segunda-feira, julho 09, 2018





AO PARTIR…     (do livro Poemas Musicais)

(S/ tema “Lacrimosa” / Requiem de Mozart)

Ao partir
a vida inteira
perpassa nos meus olhos…
os cumes da esperança
os vales da tristeza
os campos do amor
e a certeza
do irrepetível seio
onde o sangue
é o sonho
o tempo
a esperança
esse seio onde
a bonança
se faz colo
em tempo de agonia
esse que me ensinou
a alegria
e a dor
desde criança…
ao partir
um requiem feliz
a cantar
ao mundo que conheço
que a vida
é um suspiro
apenas isso
dum deus que sei
mas desconheço
um deus
que penso merecer
na eterna repetição
de cada ser
e pela alma
imortal
que lhe agradeço!...

Maria Mamede





quarta-feira, julho 04, 2018




terça-feira, julho 03, 2018






Tantas as rugas do tempo
pelas encostas desta vida…
tanta coisa já vivida
e quanta mais por viver
tantos dias, tantas noites
a andar no engenho que ela
nos oferece ao nascer…
com ele vamos crescendo
nos verãos da nossa história
e dele vem a memória
das outras mais estações;
quando a vida é descendente
e devagar traz à gente
muitas cãs, muitas engelhas
e muito tempo aos serões
é que o tempo quase voa
co’a loucura do milhano
e qualquer dia é um ano
a menos no calendário…
então
pesa mais nosso fadário
o corpo prá terra inclina
e o poema da vivência
tem na vida esta cadência
das continhas dum rosário!...

 Maria Mamede

("NAS ENCOSTAS DO TEMPO"





segunda-feira, julho 02, 2018






De Alma e voz se faz canção
que vai e voa
em busca do espaço
de Alma e voz
se faz a oração
divino e terreno num abraço.
É a Alma que vibra na garganta
porque a voz de quem chora
ou de quem canta
é a mesma voz que ri e ora
é a mesma Alma em vibração
etérea chama
de amor e de perdão
da aurora do nascer
ao ocaso d’ir embora!

Maria Mamede





sábado, junho 30, 2018

AINDA NO RESCALDO DOS SANTOS POPULARES...


É NOITE DE S. JOÃO

É Noite de S. João
e a vida gira
vira-vento colorido à janela
no céu negrura sobem os balões
e os foguetes de cores
fingem-se estrela.
pelas ruas inundadas 
de folia
manjerico na mão, erva cidreira
a turba passa, ´té ao romper do dia
e meus olhos, saudosos
vão com ela!

Maria Mamede

(Junho/2018)


quinta-feira, junho 28, 2018


PARABÉNS MÃE!

Hoje fazes anos, minha Mãe;
será que existe
prenda que te mereça neste mundo?
Que poderei encontrar
de tão profundo
pra te mostrar o amor que não tem fim?!
Noventa e dois anos Mãe
noventa e dois
e a vida continua como antes
a fugir de mim com toda a pressa
contudo, agora
pouco me interessa
só os filhos, a família e os amigos,
amores qu’inda guarda o coração…
além deles, só a fé e a Poesia
tudo o mais foi ficando
ilusão!
Há quinze anos que te foste
era inverno
e a vida não se tornou inferno
por tudo o que acabo de dizer;
a cada dia é maior a ânsia
de te ver
e a saudade não pára de crescer…

Bom dia minha Mãe, um beijo
e PARABÉNS!

Maria Mamede
27/Junho/2018








quarta-feira, junho 27, 2018




AI A VIDA

Ai a vida
sopro, sonho
etéreo canto
de alegria ou de
quebranto
de magia, de saudade
ai a Vida
luz de estrela
cravo rubro na janela
canção
numa voz singela
lembranças
de mocidade.
Ai a vida
muito ou pouco
garrida
bem vivida
mal vivida
sorriso, riso
pranteio
é um olhar de criança
que envelhece
na esperança
da verdade que não veio.
Vida, vida
intensa vida
muito ou pouco
comprida
à espera da liberdade
frágil
como luz de vela
traz o choro, traz a dor
dá o amor
e o desamor
mas vale a pena vivê-la
e sugá-la
em cada idade!

Maria Mamede
11/03/2018