domingo, setembro 16, 2018


Na quietude mansa 
desta casa silente
há apesar do frio
que aparece
algo
que toda me aquece
nos horizontes restritos
da memória...
é algo comum;
qualquer estória 
possui
e sendo diferente
é sempre igual
e toda a gente
o aceita, o oferece
com olhar brilhante
e ar disperso
como quem dá
perfumes
flores
um verso
ou qualquer coisa 
sonhada ou vivida;
qualquer coisa
que nos deu mais Vida
a certa altura da Viagem.
esse algo superior
fluido, etéreo
tem um nome simples
é AMOR
que não passando, às vezes
de miragem
tem a magia
que há no lar
quando só aquece
sem queimar!...

Maria Mamede
(do Livro "A CASA SILENTE")


domingo, setembro 09, 2018



SEMPRE À VOSSA CHEGADA...
                              
                                               (aos meus Filhos, ambos emigrantes)




Sempre à vossa chegada
entra a vida pela janela
e minh' alma é renovada
pelo Amor que vem com ela;
sempre à vossa chgada
entra a vida pela janela...

sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela!
Há risos na madrugada
e arroz doce na panela;
sempre à vossa chegada
cheira-me a casa a canela...

sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!
Abre-se a porta fechada
do meu peito, escancarada
pois sempre à vossa chegada
mesmo em Agosto é Natal!

Maria Mamede

(do livro "BANALIDADES")




quarta-feira, setembro 05, 2018

TESTAMENTO
Quando eu partir, filhos meus
que tenho pra vos deixar
a não ser o verbo amar
em desditoso exagero,
o único qu'eu ' inda quero
e sempre quis conjugar?!
Posso dizer-vos que creio
ter nascido com o destino
que a cada, de pequenino
diz do bem e diz do mal
que se terá vida fora
e afirmo, nesta hora
sem peias e sem rodeio
que amar será o meio
de o Bem supremo alcançar.
Quando eu partir filhos meus
não tereis terras, dinheiro
nem matas, nem areais
nem nada de que possais
engrandecer-vos, bem sei
mas deixarei a abundância
duma vida com fragrância
que a Natureza me deu;
vida com bem e com mal
tão simples, tão natural
tão singela com eu;
mas com ela eu procurei
deixar-vos tudo o que sei
fazer-vos ir mais além
incitar vossa vontade
de amar sempre a Verdade
e a Liberdade também!
Quando eu partir, filhos meus
não sereis donos de nada
a não ser da consciência
e nem tereis concorrência
ao querer alma lavada,
pois neste mundo, acredito
vive-se preso no fito
do lucro, do muito ter
por isso, quando eu morrer
tereis apenas em sorte
a certeza de que a morte
é uma porta, a passagem
para a eterna viagem
que à Vida nos conduz;
mas creio poder deixar
bem dentro do vosso peito
o Amor, o mais perfeito
prá vossa vida adoçar!
(do livro "BANALIDADES)     



Comentários

sábado, agosto 25, 2018



ALENTEJANDO

Cigarras cantam a canção dolente
de lendas mouras e de amores sem fim
como se chorando, ao calor mordente
a paixão que finda em ti e em mim.

O cacto aloé à beira da ‘strada
vai ficando longe, coberto de pó
tudo é caminho, ‘té de madrugada
e a vida ficando cada vez mais só!

Cai a noite morna e o passo arrasta
o cansaço quente, a tristeza fria
desperta o milhano, traz o sol em brasa
canta’ o Alentejo ao nascer do dia!


Maria Mamede


domingo, agosto 19, 2018


( de vez em quando uma prosa)




COLOQUIAIS – 2

Quando Setembro chegar vou fazer as “malas” e partir!
É bem verdade que todas as partidas me fazem chorar dilúvios, sempre o fizeram, principalmente aquelas em que sou eu quem fica; e se partir é esperança, chegar é a imensa alegria da redescoberta da casa, vazia de mim, que sorri e suspira aliviada porque voltei… e é ainda, o relembrar dos cheiros, daqueles cheiros que mesmo inconscientemente, guardamos num cantinho da nossa memória, cheiros dela, da casa e da natureza circundante, a juntar aos sons e silêncios que ela proporciona para eu ser feliz!
E mais que partir, chegar É BOM, tão bom, que creio será assim tamanha a Alegria das aves, no regresso aos ninhos antigos!

Maria Mamede


domingo, agosto 12, 2018




Qual murmúrio de oração
fumo de vela
saídos duma boca
ou dum altar
são os raios de sol
pela janela
os primeiros do dia
a entrar por ela
ou os últimos, da tarde
a terminar…
e o fumo dessa luz
bruxuleante
é na noite
bela acompanhante
de quem murmurando
se despede
até outra manhã
ou outra vida
e é no novo dia a despontar
prenuncio
de nova luz em novo altar
eterno ressurgir e despedida!

Maria Mamede


quinta-feira, agosto 09, 2018





Ah como são belos os rios!

Gostava de ser

Pelo menos um ribeirito...

Poderia, espreguiçar-me entre fragas

Deslizar no macio dos musgos

Sentir o aroma das flores

Nas margens

E enfeitar de pampilos

Os Junhos do tempo.

E mesmo que não chegasses nunca

Não teria vida solitária

Com tanto a meu lado...

Apenas uma coisa me preocupa

Tenho medo da água!...



Maria Mamede

(do livro "NO CAIS DO TEMPO")

quarta-feira, agosto 01, 2018





Nas tardes de oiro
do meu sonho
há rendilhadas colunas
de alabastro
pintadas
com poeira de astro
perdido
no encanto das marés…
astro
em poeira transformado
que um dia caiu
do céu estrelado
pra ser areia
a beijar meus pés!



Maria Mamede


(do livro "A INCOERÊNCIA DO SONHO")

sábado, julho 21, 2018





A mansidão das rolas
pela manhã
invade esta casa
que é meu peito
ond’ este corpo meu
outrora leito
inda vive, inda arde
de paixão…
e as aves todas
sabendo da tristura
de ser esta ave
aprisionada
chegam até mim
pela madrugada
e bebem em meus olhos
a amargura!

Maria Mamede



(do Livro  "A Invasão dos Pássaros")

domingo, julho 15, 2018




SOLILÓQUIO

                    (do livro "ALBUM DE FAMÍLIA"

Perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não chegaste!
E começa a estar frio demais
para este vestido fino
tingido de papoilas;
sabes, já choveu bastante
embora eu não tivesse
abandonado
este banco de pedra
onde te espero
há tantas vidas!
Entanto, o tempo corre.
Desbotou-se o meu batom
de tanto beijar a ausência
e o meu coração
potro selvagem
vai agora a passo
pelos atalhos da espera!
Atormenta-me a demora...
antes, os rios
eram lágrimas
de saudade;
hoje, porém
tudo é deserto
na morte do verde.
Os sonhos, amarelo-desespero
começam a insinuar-se
no horizonte infindo
das memórias.
Rasguei minha alma
contra o casco do navio
onde viaja a esperança
e são já mortas
as horas
que deixei esquecidas
no cais do tempo...
já não sei se falo contigo
ou com aquela pêga (*)
que me olha do galho mais alto
solitária
como eu.
Ah meu amor
perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não vieste!
E eu, aqui sozinha
há tanto tempo
creio já ter esquecido
o caminho de casa!...


Maria Mamede

(* - pássaro preto e peito branco de meio porte e grande beleza)







segunda-feira, julho 09, 2018





AO PARTIR…     (do livro Poemas Musicais)

(S/ tema “Lacrimosa” / Requiem de Mozart)

Ao partir
a vida inteira
perpassa nos meus olhos…
os cumes da esperança
os vales da tristeza
os campos do amor
e a certeza
do irrepetível seio
onde o sangue
é o sonho
o tempo
a esperança
esse seio onde
a bonança
se faz colo
em tempo de agonia
esse que me ensinou
a alegria
e a dor
desde criança…
ao partir
um requiem feliz
a cantar
ao mundo que conheço
que a vida
é um suspiro
apenas isso
dum deus que sei
mas desconheço
um deus
que penso merecer
na eterna repetição
de cada ser
e pela alma
imortal
que lhe agradeço!...

Maria Mamede





quarta-feira, julho 04, 2018




terça-feira, julho 03, 2018






Tantas as rugas do tempo
pelas encostas desta vida…
tanta coisa já vivida
e quanta mais por viver
tantos dias, tantas noites
a andar no engenho que ela
nos oferece ao nascer…
com ele vamos crescendo
nos verãos da nossa história
e dele vem a memória
das outras mais estações;
quando a vida é descendente
e devagar traz à gente
muitas cãs, muitas engelhas
e muito tempo aos serões
é que o tempo quase voa
co’a loucura do milhano
e qualquer dia é um ano
a menos no calendário…
então
pesa mais nosso fadário
o corpo prá terra inclina
e o poema da vivência
tem na vida esta cadência
das continhas dum rosário!...

 Maria Mamede

("NAS ENCOSTAS DO TEMPO"





segunda-feira, julho 02, 2018






De Alma e voz se faz canção
que vai e voa
em busca do espaço
de Alma e voz
se faz a oração
divino e terreno num abraço.
É a Alma que vibra na garganta
porque a voz de quem chora
ou de quem canta
é a mesma voz que ri e ora
é a mesma Alma em vibração
etérea chama
de amor e de perdão
da aurora do nascer
ao ocaso d’ir embora!

Maria Mamede





sábado, junho 30, 2018

AINDA NO RESCALDO DOS SANTOS POPULARES...


É NOITE DE S. JOÃO

É Noite de S. João
e a vida gira
vira-vento colorido à janela
no céu negrura sobem os balões
e os foguetes de cores
fingem-se estrela.
pelas ruas inundadas 
de folia
manjerico na mão, erva cidreira
a turba passa, ´té ao romper do dia
e meus olhos, saudosos
vão com ela!

Maria Mamede

(Junho/2018)


quinta-feira, junho 28, 2018


PARABÉNS MÃE!

Hoje fazes anos, minha Mãe;
será que existe
prenda que te mereça neste mundo?
Que poderei encontrar
de tão profundo
pra te mostrar o amor que não tem fim?!
Noventa e dois anos Mãe
noventa e dois
e a vida continua como antes
a fugir de mim com toda a pressa
contudo, agora
pouco me interessa
só os filhos, a família e os amigos,
amores qu’inda guarda o coração…
além deles, só a fé e a Poesia
tudo o mais foi ficando
ilusão!
Há quinze anos que te foste
era inverno
e a vida não se tornou inferno
por tudo o que acabo de dizer;
a cada dia é maior a ânsia
de te ver
e a saudade não pára de crescer…

Bom dia minha Mãe, um beijo
e PARABÉNS!

Maria Mamede
27/Junho/2018








quarta-feira, junho 27, 2018




AI A VIDA

Ai a vida
sopro, sonho
etéreo canto
de alegria ou de
quebranto
de magia, de saudade
ai a Vida
luz de estrela
cravo rubro na janela
canção
numa voz singela
lembranças
de mocidade.
Ai a vida
muito ou pouco
garrida
bem vivida
mal vivida
sorriso, riso
pranteio
é um olhar de criança
que envelhece
na esperança
da verdade que não veio.
Vida, vida
intensa vida
muito ou pouco
comprida
à espera da liberdade
frágil
como luz de vela
traz o choro, traz a dor
dá o amor
e o desamor
mas vale a pena vivê-la
e sugá-la
em cada idade!

Maria Mamede
11/03/2018





segunda-feira, junho 25, 2018





A DANÇA DOS ANOS

Com a dança dos anos
meu Amigo
dançamos todos nós
a roda inteira
e a fúria de viver
que foi fogueira
é agora brasa
quase morta…
‘inda um pouco de fogo
‘inda um suspiro
de amores vividos
ou deixados
nas bermas do caminho
que fizemos…
‘inda o pouco ou muito
que nos demos
em cada amor levado
passo a passo…
‘inda um fogo aceso
em nosso peito
com um morno calor
que vai esfriando
‘inda o pulsar do amor
que foi ficando
agarrado à alma
e é regaço…
cresce então em nós
um olhar baço
de recordações
bela lembrança
e cada qual tornando
a ser criança
agarra, bem forte
a esperança
sorvendo um licor
de emoções…
depois, assim
de alma lavada
segue  na peugada
da felicidade
qu’inda almeja
e regressando ao bibe
e aos calções
dá, a quem deseja
a alegria de viver
com fervor
o que lhe resta
mostrando
que jamais será funesta
a sorte de quem vive
com AMOR!....

Maria Mamede





quinta-feira, maio 17, 2018



HÁ POUCO AINDA

Há pouco ainda
a estrada, uma beleza
com mundos aos pés
por descobrir
e com tanto chão
pra ir e vir
atapetada a esp’rança
e singeleza…
há pouco ainda
era louca a idade
repleta de cores
e de fragrância
e viver era ser infância
sempre alegria
sempre mocidade…
há pouco ainda
(como corre a idade)
e tudo se esfumou
tudo é distância
da estrada percorrida
exuberância
 restou somenteem doce suavidade
a música, a poesia
o sonho e a verdade
de quando a percorria!...

Fev./2013

Maria Mamede


sábado, maio 12, 2018



AO PÉ DO MAR   (III)


Não sou feita de mar
mas ele ocupa
essa parte de mim
que é viagem
e embora fique sempre
pés na margem
sou capaz de partir
por ele fora…
não sou feita de mar
que a terra ocupa
um lugar cimeiro
no meu peito
e se a terra amo
o meu preito
é do mar que também amo
e me namora!

Maria Mamede

domingo, maio 06, 2018



MIGRÂNCIA

Que saudade Mãe!
Mãe ventre
Mãe água
Mãe chão
Mãe sangue
Mãe carne
Mãe coração…
Mãe Pátria
Mãe Mátria
Mãe Amor
Mãe carinhosa
dolorosa
rendição…
que saudade Mãe!
Quanta emoção…
estar longe dói
estar longe rói
outro chão, não é o meu chão!
O longe é dor
não é amor
nem afeição
 longe é vazio
e é tão frio
que arrefece o coração…
Mãe chegada
desejada
ansiada
Mãe abraço
Mãe cansaço
Mãe regaço
Mãe raiz, a mais funda
no meu chão!

Maria Mamede



terça-feira, maio 01, 2018



REVELAÇÃO


Era ausente o Amor
e tu chegaste!
Era triste o dia
então sorriste!...


segunda-feira, abril 30, 2018



RETRATO DE FAMÍLIA


Altas horas!
Do céu do meu espanto
desprende-se uma estrela
que vem iluminar o retrato a sépia
na cómoda da Avó
e a família ressuscita...
conversamos, tomamos chá de jasmim
e entre fatias de bolo de maçã
trocamos novidades...
fingem não saber da partida de alguns
porque as lágrimas afloram aos meus olhos.
falam de banalidades
e riem, com riso manso
de memórias antigas como nós!
Juntos relembramos cheiros e sabores, cores e formas
de tempos felizes
com campos férteis a perder de vista
regatos de água cristalina
e rãs coaxando na presa da Lavandeira...
esquecidos do tempo, não vemos que a aurora
se insinua
e a última estrela deixou de brilhar.
De repente
atiram-me beijos e voltam ao retrato.
Eu descubro uma réstia de sono e envolvo-me nele...
e ao acordar
faço de conta que sonhei com a família
no retrato a sépia
na cómoda da Avó!

Maria Mamede

(do livro "LUME")



quinta-feira, abril 26, 2018

OS ANOS PASSAM...

Houve um tempo em que foi obrigatória a paragem...
houve um tempo, longo demais, em que tudo parou sem motivo aparente...
hoje é tempo de RECOMEÇO, porque é PRIMAVERA, porque está SOL e porque a VIDA, ainda que não seja a mesma PROMESSA de antes é ainda PROMESSA a cada dia que passa, dure o que durar!

Maria Mamede

---------------------


A DANÇA DOS ANOS

Com a dança dos anos
meu Amigo
dançamos todos nós
a roda inteira
e a fúria de viver
que foi fogueira
é agora brasa
quase morta…
‘inda um pouco de fogo
‘inda um suspiro
de amores vividos
ou deixados
nas bermas do caminho
que fizemos…
‘inda o pouco ou muito
que nos demos
em cada amor levado
passo a passo…
‘inda um fogo aceso
em nosso peito
com um morno calor
que vai esfriando
‘inda o pulsar do amor
que foi ficando
agarrado à alma
e é regaço…
cresce então em nós
um olhar baço
de recordações
bela lembrança
e cada qual tornando
a ser criança
agarra, bem forte
a esperança
sorvendo um licor
de emoções…
depois, assim
de alma lavada
segue  na peugada
da felicidade
qu’inda almeja
e regressando ao bibe
e aos calções
dá, a quem deseja
a alegria de viver
com fervor
o que lhe resta
mostrando
que jamais será funesta
a sorte de quem vive
com AMOR!....

Maria Mamede