domingo, julho 15, 2018




SOLILÓQUIO

                    (do livro "ALBUM DE FAMÍLIA"

Perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não chegaste!
E começa a estar frio demais
para este vestido fino
tingido de papoilas;
sabes, já choveu bastante
embora eu não tivesse
abandonado
este banco de pedra
onde te espero
há tantas vidas!
Entanto, o tempo corre.
Desbotou-se o meu batom
de tanto beijar a ausência
e o meu coração
potro selvagem
vai agora a passo
pelos atalhos da espera!
Atormenta-me a demora...
antes, os rios
eram lágrimas
de saudade;
hoje, porém
tudo é deserto
na morte do verde.
Os sonhos, amarelo-desespero
começam a insinuar-se
no horizonte infindo
das memórias.
Rasguei minha alma
contra o casco do navio
onde viaja a esperança
e são já mortas
as horas
que deixei esquecidas
no cais do tempo...
já não sei se falo contigo
ou com aquela pêga (*)
que me olha do galho mais alto
solitária
como eu.
Ah meu amor
perfumei-me de alfazema
para te esperar
e não vieste!
E eu, aqui sozinha
há tanto tempo
creio já ter esquecido
o caminho de casa!...


Maria Mamede

(* - pássaro preto e peito branco de meio porte e grande beleza)







segunda-feira, julho 09, 2018





AO PARTIR…     (do livro Poemas Musicais)

(S/ tema “Lacrimosa” / Requiem de Mozart)

Ao partir
a vida inteira
perpassa nos meus olhos…
os cumes da esperança
os vales da tristeza
os campos do amor
e a certeza
do irrepetível seio
onde o sangue
é o sonho
o tempo
a esperança
esse seio onde
a bonança
se faz colo
em tempo de agonia
esse que me ensinou
a alegria
e a dor
desde criança…
ao partir
um requiem feliz
a cantar
ao mundo que conheço
que a vida
é um suspiro
apenas isso
dum deus que sei
mas desconheço
um deus
que penso merecer
na eterna repetição
de cada ser
e pela alma
imortal
que lhe agradeço!...

Maria Mamede





quarta-feira, julho 04, 2018




terça-feira, julho 03, 2018






Tantas as rugas do tempo
pelas encostas desta vida…
tanta coisa já vivida
e quanta mais por viver
tantos dias, tantas noites
a andar no engenho que ela
nos oferece ao nascer…
com ele vamos crescendo
nos verãos da nossa história
e dele vem a memória
das outras mais estações;
quando a vida é descendente
e devagar traz à gente
muitas cãs, muitas engelhas
e muito tempo aos serões
é que o tempo quase voa
co’a loucura do milhano
e qualquer dia é um ano
a menos no calendário…
então
pesa mais nosso fadário
o corpo prá terra inclina
e o poema da vivência
tem na vida esta cadência
das continhas dum rosário!...

 Maria Mamede

("NAS ENCOSTAS DO TEMPO"





segunda-feira, julho 02, 2018






De Alma e voz se faz canção
que vai e voa
em busca do espaço
de Alma e voz
se faz a oração
divino e terreno num abraço.
É a Alma que vibra na garganta
porque a voz de quem chora
ou de quem canta
é a mesma voz que ri e ora
é a mesma Alma em vibração
etérea chama
de amor e de perdão
da aurora do nascer
ao ocaso d’ir embora!

Maria Mamede





sábado, junho 30, 2018

AINDA NO RESCALDO DOS SANTOS POPULARES...


É NOITE DE S. JOÃO

É Noite de S. João
e a vida gira
vira-vento colorido à janela
no céu negrura sobem os balões
e os foguetes de cores
fingem-se estrela.
pelas ruas inundadas 
de folia
manjerico na mão, erva cidreira
a turba passa, ´té ao romper do dia
e meus olhos, saudosos
vão com ela!

Maria Mamede

(Junho/2018)


quinta-feira, junho 28, 2018


PARABÉNS MÃE!

Hoje fazes anos, minha Mãe;
será que existe
prenda que te mereça neste mundo?
Que poderei encontrar
de tão profundo
pra te mostrar o amor que não tem fim?!
Noventa e dois anos Mãe
noventa e dois
e a vida continua como antes
a fugir de mim com toda a pressa
contudo, agora
pouco me interessa
só os filhos, a família e os amigos,
amores qu’inda guarda o coração…
além deles, só a fé e a Poesia
tudo o mais foi ficando
ilusão!
Há quinze anos que te foste
era inverno
e a vida não se tornou inferno
por tudo o que acabo de dizer;
a cada dia é maior a ânsia
de te ver
e a saudade não pára de crescer…

Bom dia minha Mãe, um beijo
e PARABÉNS!

Maria Mamede
27/Junho/2018








quarta-feira, junho 27, 2018




AI A VIDA

Ai a vida
sopro, sonho
etéreo canto
de alegria ou de
quebranto
de magia, de saudade
ai a Vida
luz de estrela
cravo rubro na janela
canção
numa voz singela
lembranças
de mocidade.
Ai a vida
muito ou pouco
garrida
bem vivida
mal vivida
sorriso, riso
pranteio
é um olhar de criança
que envelhece
na esperança
da verdade que não veio.
Vida, vida
intensa vida
muito ou pouco
comprida
à espera da liberdade
frágil
como luz de vela
traz o choro, traz a dor
dá o amor
e o desamor
mas vale a pena vivê-la
e sugá-la
em cada idade!

Maria Mamede
11/03/2018





segunda-feira, junho 25, 2018





A DANÇA DOS ANOS

Com a dança dos anos
meu Amigo
dançamos todos nós
a roda inteira
e a fúria de viver
que foi fogueira
é agora brasa
quase morta…
‘inda um pouco de fogo
‘inda um suspiro
de amores vividos
ou deixados
nas bermas do caminho
que fizemos…
‘inda o pouco ou muito
que nos demos
em cada amor levado
passo a passo…
‘inda um fogo aceso
em nosso peito
com um morno calor
que vai esfriando
‘inda o pulsar do amor
que foi ficando
agarrado à alma
e é regaço…
cresce então em nós
um olhar baço
de recordações
bela lembrança
e cada qual tornando
a ser criança
agarra, bem forte
a esperança
sorvendo um licor
de emoções…
depois, assim
de alma lavada
segue  na peugada
da felicidade
qu’inda almeja
e regressando ao bibe
e aos calções
dá, a quem deseja
a alegria de viver
com fervor
o que lhe resta
mostrando
que jamais será funesta
a sorte de quem vive
com AMOR!....

Maria Mamede





quinta-feira, maio 17, 2018



HÁ POUCO AINDA

Há pouco ainda
a estrada, uma beleza
com mundos aos pés
por descobrir
e com tanto chão
pra ir e vir
atapetada a esp’rança
e singeleza…
há pouco ainda
era louca a idade
repleta de cores
e de fragrância
e viver era ser infância
sempre alegria
sempre mocidade…
há pouco ainda
(como corre a idade)
e tudo se esfumou
tudo é distância
da estrada percorrida
exuberância
 restou somenteem doce suavidade
a música, a poesia
o sonho e a verdade
de quando a percorria!...

Fev./2013

Maria Mamede


sábado, maio 12, 2018



AO PÉ DO MAR   (III)


Não sou feita de mar
mas ele ocupa
essa parte de mim
que é viagem
e embora fique sempre
pés na margem
sou capaz de partir
por ele fora…
não sou feita de mar
que a terra ocupa
um lugar cimeiro
no meu peito
e se a terra amo
o meu preito
é do mar que também amo
e me namora!

Maria Mamede

domingo, maio 06, 2018



MIGRÂNCIA

Que saudade Mãe!
Mãe ventre
Mãe água
Mãe chão
Mãe sangue
Mãe carne
Mãe coração…
Mãe Pátria
Mãe Mátria
Mãe Amor
Mãe carinhosa
dolorosa
rendição…
que saudade Mãe!
Quanta emoção…
estar longe dói
estar longe rói
outro chão, não é o meu chão!
O longe é dor
não é amor
nem afeição
 longe é vazio
e é tão frio
que arrefece o coração…
Mãe chegada
desejada
ansiada
Mãe abraço
Mãe cansaço
Mãe regaço
Mãe raiz, a mais funda
no meu chão!

Maria Mamede



terça-feira, maio 01, 2018



REVELAÇÃO


Era ausente o Amor
e tu chegaste!
Era triste o dia
então sorriste!...


segunda-feira, abril 30, 2018



RETRATO DE FAMÍLIA


Altas horas!
Do céu do meu espanto
desprende-se uma estrela
que vem iluminar o retrato a sépia
na cómoda da Avó
e a família ressuscita...
conversamos, tomamos chá de jasmim
e entre fatias de bolo de maçã
trocamos novidades...
fingem não saber da partida de alguns
porque as lágrimas afloram aos meus olhos.
falam de banalidades
e riem, com riso manso
de memórias antigas como nós!
Juntos relembramos cheiros e sabores, cores e formas
de tempos felizes
com campos férteis a perder de vista
regatos de água cristalina
e rãs coaxando na presa da Lavandeira...
esquecidos do tempo, não vemos que a aurora
se insinua
e a última estrela deixou de brilhar.
De repente
atiram-me beijos e voltam ao retrato.
Eu descubro uma réstia de sono e envolvo-me nele...
e ao acordar
faço de conta que sonhei com a família
no retrato a sépia
na cómoda da Avó!

Maria Mamede

(do livro "LUME")



quinta-feira, abril 26, 2018

OS ANOS PASSAM...

Houve um tempo em que foi obrigatória a paragem...
houve um tempo, longo demais, em que tudo parou sem motivo aparente...
hoje é tempo de RECOMEÇO, porque é PRIMAVERA, porque está SOL e porque a VIDA, ainda que não seja a mesma PROMESSA de antes é ainda PROMESSA a cada dia que passa, dure o que durar!

Maria Mamede

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A DANÇA DOS ANOS

Com a dança dos anos
meu Amigo
dançamos todos nós
a roda inteira
e a fúria de viver
que foi fogueira
é agora brasa
quase morta…
‘inda um pouco de fogo
‘inda um suspiro
de amores vividos
ou deixados
nas bermas do caminho
que fizemos…
‘inda o pouco ou muito
que nos demos
em cada amor levado
passo a passo…
‘inda um fogo aceso
em nosso peito
com um morno calor
que vai esfriando
‘inda o pulsar do amor
que foi ficando
agarrado à alma
e é regaço…
cresce então em nós
um olhar baço
de recordações
bela lembrança
e cada qual tornando
a ser criança
agarra, bem forte
a esperança
sorvendo um licor
de emoções…
depois, assim
de alma lavada
segue  na peugada
da felicidade
qu’inda almeja
e regressando ao bibe
e aos calções
dá, a quem deseja
a alegria de viver
com fervor
o que lhe resta
mostrando
que jamais será funesta
a sorte de quem vive
com AMOR!....

Maria Mamede


terça-feira, junho 11, 2013

sexta-feira, maio 31, 2013

Hoje é dia da Criança! Por isso, o meu poema é para as crianças e faz parte dum livro a editar, que tem por título "POEMAS COM O TEU NOME".



CARLOS

“Carlitos porta-te bem!”
Dizem o Pai e a Mãe
o Avô e mais a Avó
mas o Carlitos, maroto
puxa o rabo do Garoto
pobre gato, e não tem dó!
Mas gosta dos animais
e dá arroz aos pardais
que pousam no parapeito
da janela do seu quarto
onde em cima da mesa
tem  uma luz sempre acesa
por causa do Belisário
que é vermelho e divertido
e às vezes tão atrevido
que salta do aquário!


Maria Mamede

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CARLA

“Vá lá Carlita, vá lá
(diz-lhe , tão doce, a mamã)
são horas de ir prá escola!”
Mas a Carlita, ensonada
faz que não ouve nada
e quer voltar a dormir…
depois, sua Avó Rosina
de quem gosta a pequenina
diz-lhe também com carinho
“Carlinha, neta querida
são horas de irmos à vida
e o Pedro, teu vizinho
já está na rua à espera…
vá lá, é feio obrigar
um amigo a esperar
e olha o sol, é Primavera!”



 Maria Mamede

segunda-feira, outubro 22, 2012

A MANUEL ANTÓNIO PINA

                              (Na sua partida)


Vai!
Terás à tua espera
o rosto sorridente
do poema
no Café do Molhe
outrora cheio de perguntas
e outro
e outro
e mais outro
que um dia leram
a mordacidade
das tuas palavras
e entenderam
que escondido por elas
estava o homem vertical
e o poeta...
por isso
são esses rostos
que te acolhem
e abraçam
no lugar onde todos sabem
todas as respostas
pelo tempo além
até à hora do regresso!...


Outubro/2012


Maria Mamede

domingo, julho 08, 2012


Logo
mais tarde
quando por engano
ou hábito antigo
pegares no telefone
para me falar
lembra-te
da espera
dos silêncios cúmplices
dos desentendimentos
frágeis
das palavras carinhosas
de reconciliação…
recorda-te
dos pequenos presentes
dados a medo
no tempo descoberta
dos passeios no parque
em pleno Outono
da Primavera
com flores no cabelo
dos beijos inesperados /debaixo das buganvílias…

Maria Mamede
(in "A Casa Silente")

domingo, julho 01, 2012



COM GERSHWIN…

Com Gershwin
falo do meu amor por ti!
Desse
que só posso gritar ao mundo
num grito calado
abafado
que ninguém pode escutar
mas visceral e quente
amor diferente
amor final
sem igual
princípio e meio
do meu ilusório anseio
de antanho…
amor escondido
doído
sem tamanho
amor
que perdendo
ganho…
amor que recuso
mas com abuso
me invade a mente
e me tem
e que possui
o que sou
e o que fui…
ao mesmo tempo
outonal e cálido
caminho
que um verão de fogo
não deixou ainda
loucura
amarga e doce
e linda
amor sensual
brutal
de alma desavinda
e de sereno regato
ao luar;
amor inconformado
que se revolta
por se ver calado
e só em versos grita
a desdita
de não poder gritar!...

domingo, junho 17, 2012

UM HINO À CIDADE

Ai esse corpo cidade que a cidade vai abrindo
esse corpo de ansiedade nas vidas que vão florindo...

ai esse corpo violado que se esgueira pelas vielas
esse corpo maltratado nos corpos deles e delas...

ai esse corpo almofada sem atavios riqueza
corpo de pedra lavrada, corpo de vida burguesa...

ai esse corpo cidade com traineiras na lonjura
sempre manhã, sempre tarde, nos braços da noite escura...

ai esse corpo doçura no amor de quem lhe quer
esse corpo dedilhado, como guitarra-mulher...

ai esse corpo de espanto desta cidade brumosa
todo riso, todo pranto, todo amante ansiosa...

ai cidade marginal no desespero dos dias
Cidade Nobre e Leal de muitas democracias...

ai encanto de pintores, de poetas, doutros mais
de jardins cheios de cores, de tertúlias ancestrais...

és Cidade toda Povo de manjerico na mão
e és Porto de igualdade em Noite de S. João!...


Maria Mamede

segunda-feira, junho 04, 2012


NASCIMENTO

O dia tinha nascido
havia pouco
nascia uma “mulher”
logo depois
passou a mesa
a ter mais um talher
deixou na casa
de haver somente dois…
dorida e feliz
a Mãe sustinha
a “mulher” nascida
do seu seio
e no seu belo rosto
uma ruguinha
a mais, com ela veio
temendo o futuro
iniciado
pela pequena “mulher”
dormindo ao lado…

4/Junho/2012

M.M.

terça-feira, maio 22, 2012


RAPTO

Toma-me dos anjos
e leva-me nos teus braços
através dos caminhos
do luar
para lá da cordilheira…
toma-me dos deuses
e leva-me ao colo
abraçada a ti
para lá do azul…
contigo me farei pluma
e luz coada…
voemos então
enlaçados, meu amor
o infinito nos espera!...


Maria Mamede

domingo, maio 13, 2012


HOJE


Numa tela cinza
nua, nua, nua
teia e trama crua
toda tão sem cor
hoje, alguém pintou
esta minha vida
tão descolorida
só a dor ficou...
não deixou ficar
nem os dias mansos
com os seus remansos
de sol a brilhar
onde o céu azul
e a luz dourada
fosse pincelada
linda, de pasmar...
e o vento chegado
vinha tão molhado
de torcer as nuvens
de as fazer chorar
que a madrugada
também chegou triste
com tanger de sino
pr'alguém sepultar...
hoje não se ouviu
siar de gaivota
nem melro a cantar
ou piar de pardal
só o arvoredo
num bailado louco
diz que o sol é pouco
e enorme o medo
deste ritual!...

Maria Mamede



quarta-feira, abril 25, 2012

Em 2009, escrevi o poema abaixo, que infelizmente está cada vez mais actual.

NESTE MAIO

No Maio deste ano
nada peço...
cansada
no verso e no reverso
das bolorentas promessas
de melhora
é com dor
que vejo ir embora
a esperança que tive
e que professo...
mas crer, de verdade
eu já não posso;
e perdoem que vos diga
nós sempre tivemos
mais olhos que barriga
e acreditamos
porque queremos
no arranjo, por baixo do pano
e valorizamos o engano
a mentira, o dá-se um jeito;
quando se fará direito
o que entortamos?
E olhe-se bem
aquilo que logramos;
Já passaram 35 anos!
Dos cravos nem se sabe
murchos todos
nas promessas incumpridas
e nos danos
e no pão que falta em cada mesa;
que revolta me dá
e que tristeza
olhar os olhos
de quem sofre a rodos...
culpados?
Somos todos
ao cair, uma vez mais
no mesmo logro;
oxalá acordemos
num recobro
de diferentes promessas
sem perjúrio
do verbo ser igual
a conjugar
que latente em mim
há um murmúrio
de tormenta
prontinha a rebentar!...


30/04/09